Thursday, April 23, 2020

MEDIDAS PÓS COVID-19 II

No meu artigo anterior explanei algumas medidas que penso serem essenciais para um bom funcionamento da sociedade e da economia, enquanto convivemos com esta pandemia, e para o pós-pandemia.

Entretanto, com o abrandamento de novos contágios em muitos pontos do mundo, nomeadamente em países críticos como Espanha e Itália, começa-se já a preparar o fim gradual do confinamento e o regresso progressivo de muitas actividades económicas.

As quebras abruptas na actividade económica mundial causaram, já, aumentos exponenciais do desemprego (nomeadamente nos EUA), descidas drásticas no preço do petróleo (com o marco histórico de futuros do petróleo nos EUA a transaccionarem a preços negativos), previsões de recessão mundial e a necessidade de injecção massiva de liquidez nas economias por parte dos Bancos Centrais.

Aqui chegados, importa continuar a reflectir sobre o que devemos fazer para ultrapassar esta crise e encontrar soluções sustentáveis. Nesse sentido, proponho:

Destruição criadora com o Estado “on board” – se há coisa que o capitalismo tem dado provas, ao longo do tempo, é a sua capacidade de transformação e adaptação. Desde que o capitalismo se instalou como forma primordial de organização económica que houve uma aceleração na mudança: a sociedade muda e obriga o capitalismo a mudar, mas o capitalismo também é agente de mudança (nomeadamente através das inovações tecnológica), obrigando a sociedade a mudar.

A pandemia que estamos a atravessar é, aliás, um bom exemplo. Apesar de poder ser considerado um choque externo, na medida em que foi um fenómeno natural, biológico, a perturbar o normal funcionamento do sistema económico, o Sars-CoV2 só se torna numa pandemia porque o mundo está num nível de integração sem precedentes. Mais, o vírus só transita dos animais para os humanos, dada a produção em massa que fazemos de animais para venda e consumo.

Em todo o caso, esta paragem pode ser (e acredito que vá ser) um momento de destruição criadora, em que, como já sucedeu no passado, muitas empresas e fileiras de negócio vão desparecer, para que se criem novas: turismo e experiências em realidade virtual, sexo virtual imersivo, redes sociais em realidade virtual, equipamentos de protecção individual tecnológicos e “fashion” (já estão à venda máscaras com design), filmes computadorizados com aparência humana (hiper-realismo), drones distribuidores de produtos “à janela” e equipamentos domésticos de medicina, impressão 3D, novas vacinas, medicamentos da nanotecnologia, ligação corpo-máquinas e melhores equipamentos hospitalares (afinal, o conhecimento dos engenheiros da Ferrari, da BMW ou da Porsche fica bem empregue na construção de equipamentos médicos, mais do que na descoberta de motores automóveis com mais cavalos).

Neste processo natural da dinâmica do mercado, é fundamental que o Estado tenha um papel activo: fomentando a colaboração entre investigadores e empresas, sustentando os desempregados, impondo as regras sanitárias que protejam a vida das pessoas e promovendo a redistribuição/realocação do trabalho, fazendo com que o trabalho disponível seja distribuído pelo máximo de pessoas – diminuir o horário de trabalho, para evitar mais desemprego, e realocar pessoas. Ex: mover pessoal do turismo e da restauração para os empregos relacionados com as entregas em casa.

Só há crise severa se os bancos centrais quiserem: aquilo que está a suceder não é uma destruição das capacidades instaladas do mundo, nem da sua tecnologia ou conhecimento. É, apenas, um impedimento nas deslocações e contactos humanos face-a-face. Não há nenhuma razão para que alguém morra de fome ou frio em consequência disso. Obviamente que os reajustes no emprego que esta crise vai provocar podem atirar muitas pessoas para a precariedade financeira.

Mas é aí que entram os Estados e, em particular, os bancos centrais. Se houver a criação de moeda e a distribuição de rendimento pelas pessoas (mesmo que seja para ficarem em casa sem trabalhar), garantido esteja que os sectores fundamentais continuam a operar, não haverá escassez de bens. E não haverá inflação, pois que o rendimento entregue às pessoas não estará a aumentar a procura, antes, apenas a prevenir que caia.

Se os bancos centrais cometerem o crime de se agarrarem a preconceitos ideológicos de fobias inflacionistas, e os Governos não entenderem que este é o momento para dar dinheiro, a fundo perdido, às pessoas – mais do que às empresas – podemos viver uma crise humanitária sem precedentes. No caso europeu, isto é especialmente preocupante, uma vez que o Banco Central não pertence a nenhum país em concreto e está agrilhoado aos dogmas dos tratados europeus.

É o tempo para concretizar o Brexit – antes de existir esta pandemia, dizia-se que era muito difícil levar a cabo o Brexit por causa das fronteiras abertas, do constante fluxo de pessoas e de mercadorias a entrar e sair no Reino Unido e do efeito disruptivo que a introdução de tarifas e controlos alfandegários iria provocar nas economias, tanto da União Europeia como do Reino Unido. Pois bem, essa interrupção já está feita e os danos causados. Tem-se, agora, tempo para decidir convenientemente como serão as relações UE/RU no pós-Brexit e pós-pandemia.

Menos e mais próximo – o que a travagem forçada da economia mundial nos veio mostrar é que o nível de interdependência produtiva e de deslocalização, apesar de ter ganhos em termos de custos produtivos, tem elevados custos em termos de autonomia, auto-subsistência e poluição.

As estratégias de produção just-in-time, de desmultiplicação dos processos produtivos e de transporte contínuos de matérias-primas e bens de consumo fazem com que tenhamos muitas coisas disponíveis, rapidamente, em quantidade e variedade. Porém, basta acontecer uma falha séria num dos pontos dessa cadeia de interdependências, para o processo bloquear.

Num cenário de pandemias mais recorrentes e duradouras (Bill Gates estima pandemias deste tipo de 20 em 20 anos) ou outras crises financeiras e geopolíticas, é tempo de reconsiderar os prós e contras deste encadeamento mundial da produção e distribuição, percebendo que há riscos acrescidos que importa controlar.

Nesse sentido, ainda que se perca alguma eficiência, quantidade e variedade, faz sentido voltar a pensar em produção mais local, em maior autonomia (agrícola, industrial e energética) e numa distribuição mais baseada na proximidade. Este abrandamento forçado mostrou, também, como o mundo não acaba (pelo contrário, regenera-se), nem o ser humano se destrói se se andar um pouco mais devagar, se se tiver mais tempo para o lar, para a família e para o pensar.

Estas medidas mais estruturais não serão implementadas de um dia para o outro, mas estou convicto que, se forem por diante, poderemos ter um pós-pandemia com uma vida mais feliz do que aquela tínhamos antes.

Gabriel Leite Mota, publicado no Jornal Económico a 23 de Abril de 2020

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